Especial The Lancet: Intervenções para redução das cesarianas desnecessárias em mulheres e bebês saudáveis

Que é necessário oferecer acesso democrático e universal à cesariana segura não há dúvidas. Por outro lado, não há evidência alguma de benefícios ao oferecer esta cirurgia para aquelas que não precisam. Apesar da falta de consenso acerca de qual seria a taxa ideal de cirurgias cesarianas na população, sabe-se que a frequência atual de ocorrência do procedimento é injustificável. Tal excesso é recente e ainda pouco compreendido. 

Por Marcela Zanatta*

cesareaa com bebe

O que leva ao excesso de cesarianas?

Muitas decisões para a realização de uma cirurgia cesariana (CC) são tomadas devido às necessidades psicológicas da mãe, ou condições clinicas do bebê ou de ambos. Entretanto, nos locais onde a frequência de utilização é superior à necessidade esses motivos interconectam-se e sobrepõe-se nas seguintes categorias: parturientes, famílias, comunidades, profissionais de saúde e sistemas de saúde, financiamento e desenho/ cultura organizacional.

Em relação às mulheres, famílias, comunidades e sociedade em geral: a ideia da CC por solicitação materna é extremamente equivocada, uma vez que a maioria das mulheres não tem real preferência pela CC em relação ao parto vaginal, sendo que essa é a opção de 10 a 15% das mulheres. Essas, declaram preferir a cirurgia por medo da dor, medo de lesões perineais, de incontinência urinária e de efeitos negativos sobre a vida sexual futura. Em algumas regiões, a CC é escolhida por conveniência de data. Outro motivo que faz as mulheres preferirem a CC são as experiências prévias de partos onde houve desrespeito ou violência. Ainda, a influência da mídia não pode ser ignorada e os nascimentos por via cirúrgica são geralmente mostrados como convenientes e modernos. Cesariana 3

Em relação aos profissionais de saúde: as mulheres tendem a identificar os profissionais de saúde como os principais influenciadores em relação à sua decisão em relação ao tipo de parto. Por outro lado, os profissionais declaram que as solicitações maternas são a principal razão para as cesáreas sem indicação médica. Apesar de ser uma ideia equivocada, a imagem de que a CC é mais segura faz com que muitos profissionais a prefiram em detrimento ao parto vaginal por receio de processos judiciais. Ainda, a maioria das CC sem indicação clínica ocorrem devido à conveniência de horário para melhor organização da agenda.

Sistemas de saúde, reembolso financeiro, desenho organizacional e cultura:  em muitos países, como no Brasil, as taxas de CC são elevadíssimas na saúde suplementar. Nesses locais, o giro de capital é muito superior na realização dos partos agendados. Ainda, a pouca experiência dos médicos mais jovens na realização dos partos vaginais faz com que estes profissionais se especializem cada vez mais nas cesarianas. Ainda, as experiências negativas vividas pelas mulheres geram uma enorme desconfiança em relação aos profissionais da obstetrícia e isto pode leva-las a escolher a CC por medo de uma nova experiência ruim.

Quais as intervenções que podem reduzir as cesarianas desnecessárias?

Apesar de poucos estudos clínicos que comparem intervenções intraparto e que tenham a via de nascimento como desfecho principal, sugere-se que o suporte um para um durante o trabalho de parto, a limitação da cascata de intervenções e assistência oferecida por enfermeira obstetra tem alto impacto na redução das CC desnecessárias.

Intervenções não clínicas: tais intervenções incluem estratégias de educação para gestantes e seus familiares; implementação de diretrizes clínicas claras para condutas obstétricas em conjunto com auditoria das cirurgias cesarianas realizadas. Ainda, devemos falar sobre o incentivo financeiro bem como condições adequadas de trabalho em serviços obstétricos. cesarea bebe olho aberto

Nos locais onde o uso das CC é exagerado, como no Brasil, todos os esforços devem ser levados à atenção do público e devem ser prioridade na agenda das políticas públicas.

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*Marcela Zanatta é enfermeira obstetra, coordenadora do GT de Saúde da Mulher do COREN-SP e responsável pela supervisão da UTI de Adultos e Educação Continuada do Caism

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