Série especial The Lancet: Efeitos de curto e longo prazo da cirurgia cesariana na saúde das mulheres e dos bebês

A cirurgia cesariana é uma intervenção que pode salvar vidas, quando é bem indicada. entretanto, esse procedimento também leva a efeitos precoces e tardios na saúde das mulheres e dos bebês. A prevalência de mortalidade e morbidade materna é maior após uma cirurgia cesariana do que após um parto vaginal. A cesárea está associada a ruptura uterina, inserção anormal de placenta, gestação ectópica, natimorto e parto pré-termo e esses riscos aumentam com a exposição.  

Por Marcela Zanatta*

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O número de cirurgias cesarianas é altoe está em ascensão: em 2015 estima-se que 29,7 milhões de nascimentos tenham ocorrido por meio de cesárea, o dobro da proporção em 2000. A OMS estima um excesso de pelo menos 6,2 milhões de cirurgias, sendo que 50% deste excesso ocorre no Brasil e na China. O entendimento acerca dos efeitos a pequeno e longo prazo da cesárea na saúde das mulheres e dos recém-nascidos é importante para que os esforços para a adequação de suas taxas sejam maximizados.

Os estudos não apresentam ainda as melhores evidências acerca deste tema, mas pode-se destacar pontos de máxima importância afetados pelo excesso de cirurgias cesarianas. cesarea 2

Morte materna: apesar da dificuldade em se determinar o risco atribuível a esse tipo de parto, porém um estudo realizado no Brasil mostrou que o aumento de risco para óbito materna associado à cesariana desnecessária pode ser entre 1,6 a 7,08 vezes. A cesárea planejada parece oferecer menos risco de morte quando comparada com a cirurgia intra parto, na qual o risco seria 4 vezes maior. Além disso, o risco de morte materna durante o trabalho de parto é superior nas gestações após a cesárea, devido a maior probabilidade de rotura uterina e de inserção anormal da placenta.  

Morbidade materna grave (MMG): em grandes estudos populacionais, a MMG é consistentemente maior após a cirurgia cesariana, podendo ser até seis vezes maior.

Morbidade a pequeno e médio prazo: riscos pré e pós operatório imediatos e tardios associados às cirurgias cesarianas são bem documentados. O parto vaginal está associado com menor tempo de estadia no hospital, menor risco de histerectomia puerperal e de parada cardiorrespiratória. Entretanto, é necessário que a assistência ao parto vaginal seja altamente qualificada, pois o risco de morbidade materna é aumentado na ocorrência de cesariana intra-parto ou de parto instrumental.

As repercussões da cesárea a longo prazo incluíram aderências pélvicas, obstrução de intestino delgado, dismenorreia, dor crônica, disfunção sexual, subfertilidade, incontinência fecal e urinária e prolapso de órgãos pélvicos. Entretanto, comparada ao parto vaginal a cesárea foi associada a menor risco de incontinência urinária e de prolapso de órgãos, mas os estudos apontam que este não deve ser um critério para escolha de uma cesariana.

Em relação aos efeitos psicológicos, as mulheres que foram submetidas à cirurgia cesariana reportaram menor satisfação imediata e tardia com a experiência do nascimento, bem como menos episódios de interações positivas em comparação às que tiveram um parto normal.

Efeitos adversos em gestações subsequentes: nas gestações após uma cesárea há risco aumentado de histerectomia, inserção anormal de placenta, ruptura uterina, natimorto e parto pré-termo. Há documentada a ocorrência de 1 histerectomia a cada 25.000 gestações após um parto normal, 1 a cada 500 após uma cesárea e 1 a cada 20 gestações em mulheres com duas cesáreas ou mais. Em relação ao acretismo placentário, o risco é 3% após a primeira cesárea, 11% após a segunda, 40% após a terceira, 60% após a quarta e 67% na quinta ou mais.

Efeitos a curto e longo prazo para a criança: as cesarianas programadas aumentam o risco de problemas respiratórios e hipoglicemia. há evidências crescentes de que as intervenções intraparto podem afetar o desenvolvimento fisiológico normal, bem como patofisiológico. Crianças nascidas via cesariana são expostas à intervenções hormonais, físicas, microbiológicas e médicas diferentes das nascidas por via vaginal. Tais fatores podem causar alterações fisiológicas sutis. A consequências a curto prazo incluem alterações imunológicas, alergias, atopias, asma e menos diversidade na microbiota intestinal. Entretanto, a persistência e ocorrência de patologias a médio prazo ainda estão para ser elucidadas.  

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Praticamente todas as mulheres submetidas a cesariana tem risco aumentado de certas morbidades nas suas próximas gestações. Assim, é essencial os maiores esforços no sentido de se oferecer um parto normal seguro,  com práticas baseadas em evidências, bem como garantir que as cesáreas tenham real indicação clínica.

Você tem acesso ao segundo artigo da série da The Lancet aqui.

*Marcela Zanatta é enfermeira obstetra, coordenadora do GT de Saúde da Mulher do COREN-SP e responsável pela supervisão da UTI de Adultos e Educação Continuada do Caism

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