Série especial The Lancet: epidemiologia e disparidades na utilização das cirurgias cesarianas no mundo

O primeiro artigo da Série especial da revista The Lancet sobre a epidemia de cesarianas no mundo discute os aspectos epidemiológicos e as disparidades regionais no utilização da cirurgia cesariana.

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Por Marcela Zanatta*

O crescimento da cirurgia cesariana no mundo foi de 3,7% ao ano entre os anos 2000 e 2015, representando 29,7 milhões dos 140 milhões de nascimentos que ocorrem a cada ano e, na grande maioria dos países, é superior aos 10-15% considerados aceitáveis. O principal motivo deste aumento são as cirurgias indicadas por razões não-médicas, especialmente nos país de média e alta renda, onde o aumento foi mais significativo. A Figura abaixo representa as tendências de crescimento em todas as regiões do mundo.

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Na análise dos dados de 169 países, em 63% (106) o uso da cesárea foi superior a 15% e em 23% (49) foi inferior a 10%. Na tentativa de compreender as disparidades encontradas, realizou-se uma análise com o número de cesáreas como variável dependente e a renda per capita, a proporção de mulheres com ensino médio, a proporção de população que mora nos centros urbanos, a taxa de fertilidade e o número de médicos a cada 10.000 habitantes como variáveis independentes. A regressão linear mostrou que, nos países com taxa de cesárea dentro do recomendado, a proporção de partos cirúrgicos foi significativamente maior nos países com maior nível de desenvolvimento sócio-econômico, maior número de mulheres matriculadas no ensino médio, maior urbanização, maior densidade de médicos e menor fertilidade. No entanto, ao se restringir a análise para os países com excesso de cirurgias cesarianas não houve associação significativa entres as variáveis.

Na tentativa de compreender melhor os motivos das cirurgias, essas últimas foram categorizadas segundo a classificação de Robson. No Brasil,  o principal grupo (39,9%) submetido ao nascimento por via cirúrgica foram as nulíparas, com bebês cefálicos e maiores de 37 semanas, sendo que quanto mais instruída a mulher mais cesáreas foram realizadas.

Em relação às diferenças encontradas entre a falta de acesso à cesárea e o uso excessivo, sabe-se que enquanto a proporção de cesáreas inferior a 10% pode representar dificuldades no acesso à cirurgia quando ela é necessária, seu aumento superior a 20% não melhora os desfechos perinatais e deve indicar excesso na performance dos nascimentos por via cirúrgica. enquanto 44,3% das cesáreas do mundo são realizadas na América Latina e Caribe, 4,1% delas ocorrem na África.

O primeiro artigo da série especial da The Lancet sobre a epidemia de cesáreas no mundo não esgota o assunto, mas traz à luz diversos elementos demográficos e sociais para fomentar a discussão. A cirurgia cesariana é uma intervenção de suma importância, porém não é a única. A frequência ótima do procedimento irá variar dependendo da prevalência das patologias  obstétricas e da capacidade do serviço de saúde em implementar intervenções obstétricas de alta qualidade. Ainda, em relação ao ensino, a alta frequência de cesáreas também tem um impacto importante uma vez que os alunos estão cada vez menos expostos à prática na execução dos partos normais.

Mais entendimento sobre a epidemia de cesáreas é necessário para embasar a formação de políticas públicas e educacionais e para fornecer uma base sólida para se atingir a frequência ótima de cesáreas que ofereça segurança para as mulheres e os bebês. 

Se você quer saber mais, consegue acesso ao artigo original na íntegra aqui

*Marcela Zanatta é enfermeira obstetra, coordenadora do GT de Saúde da Mulher do COREN-SP e responsável pela supervisão da UTI de Adultos e Educação Continuada do Caism

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