Maria Ester Januário, de copeira a nutricionista (e rainha do carnaval)

Talento e muito estudo propiciaram ascensão profissional na Unicamp

Maria Ester Januário, atual diretora do Serviço de Nutrição do Hospital da Mulher José Aristodemo Pinotti (Caism), ingressou na Unicamp como copeira, em 1986, depois ter sido a única jovem a receber um “não” de uma recrutadora numa entrevista de seleção para vaga de atendente de enfermagem. O objetivo naquele momento era ser enfermeira, mas decidiu entrar por outra porta. “Mesmo eu tendo concorrido com colegas que acabavam de se formar comigo no curso de atendente de enfermagem do Senac, a entrevistadora disse que eu não tinha prática e aprovou todos os outros. Bateu desespero. Caí num choro e tristeza e, comovida, a mãe de um namorado, na época, comentou o incidente com um professor de outra Universidade onde ela trabalhava. Imaginem, este professor estava trabalhando justamente no Caism naquele momento e me encorajou a tentar entrar por outra área! Voltei e consegui o emprego como copeira, por meio de um concurso. Foi uma alegria imensa esta oportunidade, afinal, meu objetivo era sempre um emprego melhor.”

Sim, um emprego melhor, por necessidade, era a saga de Ester ao se mudar de Araraquara para Campinas, em 1984, deixando em sua terra o pai, hoje funcionário público aposentado, a mãe, dona de casa, e quatro irmãos. Como as barreiras servem para impulsionar corpos incansáveis e decididos, em meados da década de 1980, Ester preferiu engolir o choro não somente em sua primeira tentativa de ingressar no Caism, mas em todas as dificuldades na correria intensa por emprego.
Maria Ester Januário, diretora do Serviço de Nutrição do Caism: “Sinto-me honrada e gratificada pelas oportunidades”

O lugar de Ester estava reservado no Caism, se não no ofício de enfermeira, na carreira de nutricionista, que não a afasta da vocação de cuidar. Ela se orgulha das oportunidades que abraçou até se tornar diretora em 2015. Entre as várias tentativas por empregos em portas de fábricas, agências, sem sucesso, a oportunidade de trabalhar como cuidadora de uma senhora despertou o desejo de ser enfermeira. Por isso se matriculou no curso do Senac.

Ao longo da trajetória, a nutricionista teve oportunidade de atuar em sua primeira área de formação, a enfermagem, mas já vivia um “relacionamento sério” com a nutrição. Com paciência, talento e muitos estudos, abraçou todas as oportunidades de ascensão. Tornou-se auxiliar de nutricionista, ocupou um cargo de supervisora de setor e quando atingiu o cargo de técnica em nutrição, procurou uma universidade em que conseguia conciliar trabalho e estudo. Frequentava a Universidade Metodista de Piracicaba pela manhã e trabalhava no período da tarde. “Após conclusão da faculdade em 1996, novamente sorte ou destino, consegui ocupar uma vaga como nutricionista no mesmo lugar em que fui admitida como copeira. Sinto-me honrada e gratificada pelas oportunidades.” Em 2007, já com filhos pequenos, me dediquei nos finais de semana à pós-graduação em Nutrição Clínica pela Universidade Gama Filho.

Alimento
Hoje Ester orgulha-se de participar de projetos destinados a promover os melhores cuidados nutricionais a pacientes do Caism. Na área de oncologia, onde atuou por um longo período, dedicou-se a cuidados nutricionais em todas as fases do tratamento oncológico e em cuidados paliativos. Nesta área, a nutricionista participa de vários projetos, capacitações, cursos e congressos. Um dos protocolos dos quais se orgulha, como membro da Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional do hospital, é ‘Abreviação do Jejum dos pacientes cirúrgicos oncológicos’.

Além da atuação em vários programas de reeducação alimentar, Ester colaborou na elaboração do Consenso Nacional de Nutrição Oncológica do Instituto Nacional do Câncer (Inca), em 2009, e em outros projetos envolvendo nutrição e oncologia. “Em nosso serviço de nutrição, também desenvolvemos sachês de ervas aromáticas para acompanhar as refeições de pacientes com dificuldade no paladar, inapetentes e com restrição de sódio na dieta. Isso foi feito dentro de um projeto de custo baixíssimo. Essas iniciativas nos deixam sempre motivadas”, acrescenta.
Para os funcionários do Caism, Ester e uma amiga montaram o programa Perdendo para Ganhar. “Foi uma experiência magnífica, com resultados significativos em todos os sentidos.”

Adereços
Todo enredo de verdades e fantasias precisa de bons adereços. Assim, na busca de “uma vida melhor”, Ester encontrou-se também na luta contra o racismo e na música. Primeira rainha do bloco carnavalesco City Banda, ela se destaca entre personagens tradicionais do carnaval campineiro, atualmente como presidente do bloco Tomá na Banda. “São 32 anos de pura alegria e diversão, e eu me sinto honrada de dar continuidade a esta tradição.”

No Festival Comunitário Negro Zumbi (Feconezu), que a cada novembro reunia todas as entidades do movimento negro para troca de experiências e divulgação de trabalhos, entrou em contato com a classe artística e cultural da cidade. “Hoje, tenho como um grande privilégio o encontro com pessoas de tamanha riqueza cultural e que me despertaram toda sensibilidade artística e gosto musical que vai desde Itamar Assunção, Luiz Melodia, Raul Seixas a muito samba de raiz.”

Ester temperou sua história com aromas e purpurinas. Afinal, diz o compositor poeta: “Não desespere. Quando a vida fere, fere. E nenhum mágico interferirá. Se a vida fere com a sensação do brilho, de repente, a gente brilhará.”

 

ESPECIAL

QUA, 13 SET 2017 | 11:20
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