O ‘DNA’ do CAISM

No atual momento, no contexto das políticas públicas em Saúde da Mulher, é importante destacar o papel do CAISM em todos esses anos de atuação. Desde sua criação o CAISM tem demonstrado um perfil inovador e absolutamente em consonância com as necessidades sociais. Da forma como se iniciou, o CAISM foi articulado e concebido como referência para a organização das políticas e serviços em saúde da mulher.

Essa concepção de ATENÇÃO INTEGRAL por si só trazia uma ideia de inovação pois era radicalmente diferente das concepções de mulher e cidadania praticadas até então pelas políticas de saúde. Até a década de 1970 o papel da mulher nas políticas de saúde era limitado a sua função de reprodutora; havia uma fragmentação da assistência, as mulheres eram atendidas apenas no ciclo gravídico-puerperal e a tônica era a desigualdade nas condições de vida e nas relações entre homens e mulheres.

Essa ordem só viria a ser contestada entre os anos de 1960-70 a partir de uma teorização que viria romper com a pretensa naturalização da opressão feminina. Até então o objetivo das políticas de saúde era fazer das mulheres melhores mães. Considerava-se que a criação dos filhos seria o aspecto mais relevante para mulher em relação ao desenvolvimento econômico do país. Foi somente a partir de 1970 que isso começou a mudar e o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher, o CAISM, acabou sendo criado dentro desse contexto histórico de demanda de um novo papel social feminino.

A partir daí esse embrião de inovação do CAISM se expandiu para as políticas públicas. Na década de 1980 intensificaram-se as questões relativas à saúde reprodutiva e o Estado passou a reconhecer a agenda feminista nessas relações. Em 1983 o Ministério da Saúde criou um grupo de trabalho para o desenvolvimento e integração de ações em saúde e nutrição da mulher e da criança. Dos três médicos participantes desse grupo, dois deles eram os médicos Anibal Faúndes e Oswaldo Grassiotto (conhecem?), professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Esse grupo de trabalho criou um programa nacional denominado PAISM, que trazia uma ideia de integralidade na assistência, propondo ações de prevenção e promoção de saúde, assistência obstétrica, rastreamento de câncer e ações em outras momentos da vida da mulher. Esse programa futuramente se transformou em Política Nacional, e trazia consigo o DNA de inovação do CAISM.

Especificamente na área da Obstetrícia, o CAISM e seus professores desempenharam papel importante na construção das políticas para a saúde da mulher. Na década de 1990, a questão da epidemia de cesáreas e o modelo equivocado de assistência ao parto que o Brasil assumia fui evidenciado pelos estudos de “Cecatti e Faúndes” que denunciavam o problema do alto número de cesáreas no Brasil. Novamente isso serviria para embasar a criação de leis e a revisão das políticas públicas.

Depois disso, os protocolos de assistência ao pré-natal, os protocolos de assistência à gestação de alto risco do Ministério da Saúde, os protocolos de pré-natal da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e o Programa de Humanização do Parto do Ministério da Saúde foram gerados aqui. Também no âmbito internacional, as pesquisas e as ideias geradas pelo grupo de professores do CAISM têm sido base para criação de políticas internacionais de assistência obstétrica, como as estratégias para a redução da mortalidade materna e os conceitos de Near Miss e morbidade materna.

Dentro do Hospital, a criação de leitos de pré-parto/parto/puerpério, a presença de acompanhantes durante o parto, a redução do nível de intervenção durante o trabalho de parto, tudo isso foi implementado como reflexo do pioneirismo daqueles que faziam o CAISM e estavam atentos aos anseios sociais e às evidências científicas baseadas nos estudos que eram realizados por aqui. Sem falar nos avanços nas áreas de infecções, oncologia, planejamento familiar e ginecologia!

Hoje não há como se falar em saúde da mulher no Brasil e no mundo sem fazer referência ao CAISM. Quando se olha para o passado, reconhecemos o “DNA” do CAISM naquilo que temos de melhor: nossa marca de inovação, de liderança e de respeito às necessidades sociais e individuais da mulher. E isso continua sendo impresso pelas novas gerações. Bom é que, quando se olha para o futuro, temos certeza de que esse DNA também estará lá!

 

Prof. Dr. Rodolfo de Carvalho Pacagnella
Departamento de Tocoginecologia-FCM/UNICAMP
Divisão de Obstetrícia – CAISM/UNICAMP

Copyright © 2017 - CAISM/UNICAMP - Todos Direitos Reservados.